Por que o mundo irá mudar após a Pandemia?

Há cerca de cem anos, em 1918, o mundo viveu uma das piores pandemias já registradas, a gripe espanhola. A doença eclodiu na Europa durante um período de migração em massa no fim da primeira da guerra. Desde então tivemos algumas pandemias, mas nenhuma igual a gripe espanhola ou a atual COVID-19, causada pelo coronavírus.

A família Coronaviridae engloba vários vírus, dentre eles a espécie SARS-Cov, descoberta em 2002, e a cepa atual, o SARS-Cov-2. Acredita-se que esta espécie deriva de uma espécie de coronavírus de morcego.

Nos últimos 30 anos, o aumento da densidade populacional no planeta e a crescente globalização, com aumento da circulação de pessoas, promoveu maior exposição a patógenos causadores de doenças contagiosas. O vírus chegou no momento em que a China estava prestes a realizar a maior migração humana da história – mais de três bilhões de viagens são feitas na época do Ano Novo Chinês, promovendo esta rápida disseminação.

O novo coronavírus é altamente contagioso e parece ser transmitido por meio de gotículas, quando as pessoas tossem ou espirram. Como o vírus sobrevive por um tempo limitado fora do corpo, as pessoas precisam estar relativamente próximas umas às outras para que o vírus se espalhe. O contato pessoal próximo, como aperto de mão, abraço e beijo são facilitadores da transmissão, bem como contato com objetos ou superfícies contaminadas seguido de contato com boca, nariz ou olhos.

A prevenção individual deve ser feita protegendo nariz e boca ao espirrar ou tossir, utilizando o braço. Lavar sempre as mãos ou, se não for possível, higienizá-las com álcool gel. Os principais sintomas são como os de uma gripe comum: febre, coriza, tosse e dificuldade para respirar. Pacientes maiores de 60 anos, portadores de doenças crônicas, obesos e tabagistas configuram o grupo com mais risco de desenvolver complicações e evoluir para óbito.

Pacientes que desenvolvem formas mais graves da doença, podem apresentar um quadro clínico bem diverso. As alterações vasculares mais frequentemente vistas são a ocorrência de tromboses e vasculites (inflamação dos vasos sanguíneos). Como em qualquer estado inflamatório, a infecção pelo COVID-19 propicia uma condição trombogênica no organismo, facilitando a ocorrência de coágulos nas veias (trombose).

Ainda se sabe pouco sobre o tratamento mais eficaz para a doença. Estudos em andamento, porém ainda sem conclusão definitiva, apontam bons resultados com uso de hidroxicloroquina e azitromicina. Alguns estudos também mostram vantagem no uso de anticoagulantes (heparina), justamente para combater esta maior propensão a trombose, que aumenta o índice de complicações. No entanto, devemos ter cautela com estes resultados ainda iniciais, e em hipótese nenhuma deve-se utilizar estes medicamentos sem a indicação e acompanhamento médico.

O que se pode afirmar, e essa é a boa notícia, é que embora hoje haja mais surtos de doenças de alta transmissibilidade, a morbidade e mortalidade tem reduzido. Os tratamentos estão mais avançados, as medidas de prevenção são mais eficientes e houve aumento do acesso à informação e assistência médica. A melhor prevenção para as infecções virais são as vacinas, que estão sendo desenvolvidas com rapidez. Embora o sistema global não seja perfeito, estamos melhores em detectar e responder a surtos de doenças.

O mundo irá mudar após este surto global e precisamos ter mais consciência. Os sistemas de saúde e a maneira como tratamos as doenças devem mudar. Haverá aumento do movimento de desospitalização, ou seja, realização de procedimentos médicos fora do ambiente hospitalar, também conhecido como cirurgia ambulatorial. Este novo modelo de tratamento poupa leitos importantíssimos dos hospitais para situações mais graves e procedimentos de maior complexidade, além de separar os pacientes mais graves, com maior risco de adquirir e transmitir infecções, dos mais sadios.

 

Dr. Márcio Filippo

CRM: 5274008-0

Cirurgião Vascular e Endovascular

Prof. Assistente de Cirurgia Vascular da UFRJ

Proprietário da Clínica VENE

Site: drmarciofilippo.com.br